Terminou ontem a série de sabatinas que o Jornal Nacional realizou com quatro dos principais candidatos à presidência do Brasil. Cada um, ao seu modo, mostrou seu melhor. E também seu pior.

O tom dos entrevistadores é o mesmo de campanhas passadas. Quase inquisidores, eles buscam as contradições e problemas do discurso daqueles que pleiteiam o Palácio do Planalto. Os jornalistas partem da compreensão de que a bancada do principal programa jornalístico da Rede Globo não é mais um espaço para desfilar platitudes.

Se a tentativa de encantoar o candidato é positiva, o fato de não deixar o cara concluir o raciocínio irrita sobremaneira. Pô, deixa a pessoa terminar o que está falando! Interromper a toda hora é chato demais. Por outro lado, como já tenho também alguma experiência em entrevistar políticos ao vivo, entendo o lado de William Bonner e Renata Vasconcellos. Corre-se o risco do cara destrambelhar a falar e matar todo o tempo com um discurso que não vai para lugar nenhum. Achar o meio termo entre não deixar o cara falar sem freios e, por outro lado, permitir a conclusão do pensamento é o desafio para as outras ocasiões.

Ciro Gomes mostrou que tem projeto para o Brasil. Conseguiu detalhar mais seu grande trunfo, que é devolver ao mercado consumidor quem está com seu nome negativado. O tal do SPCiro. Expôs experiências bem-sucedidas em sua vida pública com a verve que lhe é característica. Por outro lado, a defesa cega de Carlos Lupi e a negativa da condição de réu do presidente do partido pelo qual é candidato, o PDT, pegou mal demais. Por isso, considero que a performance de Ciro foi a pior dos quatro que estiveram no horário nobre global.

Jair Bolsonaro colocou o time no ataque em modelo kamikaze. Afrontou a Globo, foi desrespeitoso com os entrevistadores, não respondeu ao que foi questionado, não seguiu as regras acordadas para a sabatina. Extremamente coerente com sua trajetória. Para quem o considera mito, agiu conforme essa galera admira. Para o indeciso, mostrou deselegância e nenhum projeto. Saiu no zero a zero. O que para ele é vitória. Para quem lidera as pesquisas sem a presença de Lula, um ótimo resultado.

Geraldo Alckmin conseguiu mostrar aquela que é sua principal virtude eleitoral, a experiência. Elencou seus resultados no governo de São Paulo, não demonstrou insegurança e se saiu bem quando confrontado em relação aos casos de corrupção do PSDB. Contudo, faltou ser mais incisivo para com os adversários. A estratégia eleitoral precisa ser revista. Se o tucano não tirar votos de Bolsonaro, não vai para o segundo turno. Faltou o embate direto com quem ele disputa os votos à direita. Alguma frase do tipo: “enquanto o Bolsonaro só fala, eu já fiz. Reduzi os homicídios de São Paulo para bem abaixo da média nacional”. Alckmin está deixando de ser o picolé de chuchu. Mas a pouco mais de 30 dias do primeiro turno, o tempo pode ser exíguo para se descolar desse rótulo. Ganhou o jogo de um a zero quando precisa de uma goleada. Poderia ter conseguido se fosse mais ousado.

Marina Silva, por sua vez, ocupou de forma muito positiva o espaço do Jornal Nacional. Ao se referir de forma elogiosa a Itamar Franco, marcou um golaço. O verdadeiro pai do Plano Real agiu de fato como estadista e, ao rememorar essa figura, mostrou que tem um paradigma de respeito para seu governo. Outro ponto que mostra que o quanto Marina Silva se saiu bem foi que os entrevistados não tinham muitos pontos para tentar apertar a candidata. Isso demonstra um passado limpo. Começaram falando da pouca base de apoio da Rede. Depois, falaram das alianças dos partidos nos estados. Marina foi brilhante ao mostrar a incongruência do comportamento dos jornalistas. Uma hora a cobram por isolamento; no momento seguinte, pelas companhias. Outra prova de que Marina se saiu bem, foi o fato de que ela quem melhor conseguiu concluir as falas, sendo poucas vezes interrompidas. A candidata demonstrou não ter pontos frágeis em sua trajetória. Pode ter angariado votos importantes entre os indecisos. Foi quem teve o melhor desempenho entre os quatro.

E para você, nobre leitor, quem se saiu melhor?

Comente

X