Acordei ainda tonto. Travesseiro babado, estômago roncando de fome. Dor de cabeça. Boca seca. Ressaca clássica. Será que o que me recordo sobre ontem realmente aconteceu? Sonho ou realidade? Vai saber. E, cá entre nós, detalhe um tanto quanto irrelevante. Em tempos de fake news decidindo eleições, quem está preocupado com isso?

O bloquinho de anotações ao lado de minha cama comprovava: eu tinha uma entrevista exclusiva com o presidente do Brasil. Se escrevi em momento ébrio como ficção ou a amnésia etílica apagou que realmente estive face a face com o que ostenta a faixa presidencial no peito, deixo por sua conta.

Estava bebendo uma boa Ipa goiana em uma dessas modernosas padarias que vendem de tudo, inclusive pão. Vejo um cara chegando com uma camiseta do Palmeiras falsificada. Paletó por cima, chinelo Rider no pé. Se serve no bandeijão. Senta-se ao meu lado e já vai direto para o WhatsApp. Entendi que a sorte me sorriu. Não perderia essa oportunidade por nada. Vejo que em seu prato tinha salsicha coberta com leite condensado. Saquei que harmonização não era seu forte. Para puxar assunto, ofereci um copo de cerveja.

Tu tá maluco, porra! Isso aí é amargo demais, talquei?

Lembrei-me da adolescência. Peguei um suco de laranja e batizei com 51. Hi-fi de pobre. Servi para nós dois. Ele deu um gole, me olhou e disse:

Isso aqui é que aquela petralhada de Curitiba leva para o molusco, né? Hahahahaha! Mas se tem laranja, eu gosto. Adoro suco de laranja. Meu filho 01 também gosta muito. Aprendeu comigo. Filho é assim, tem que aprender as coisas com os pais, talquei? Se não, vem esses professores esquerdopatas e acabam com as crianças. A família é que tem que ensinar isso aí.

Falei que era jornalista. Antes de terminar o meu pedido de entrevista, ele já falou:

Ou é gayzista, ou maconheiro, ou petista. Ou até mesmo os três. Você tem cara dos três, porra! Tem que mudar isso aí!

Elogiei um livro do Olavo de Carvalho. Ele abriu um sorriso. Quando saquei que ganhei sua confiança, fui para o ataque. Perguntei para ele se ele estava acompanhando alguma série.

Aquela das presas lá do Netflix. Vagabunda tem que ser presa. Como é mesmo o nome… Orange is alguma coisa lá, talquei? Essa é boa.

Um livro?

Meu Pé de Laranja Lima.

E o melhor filme que viu na vida?

Não entendi muito, mas gostei do jeito que trataram aquele vagabundo do Laranja Mecânica. Não dão mole pra bandidagem. Assim que gosto, talquei?

Onde gostaria de morar quando se aposentar?

Laranjeiras. Melhor bairro do Rio. Mas Zona Sul tem muito comunista. Aquele povo do Psol doutrinou todo mundo lá. Mas a gente vai mudar isso aí, talquei?

Melhor time de futebol que já viu jogar?

A seleção da Holanda. O uniforme é o mais bonito que já vi, porra!

Prato preferido?

Lombo de porco. Quando a Michelle faz molho de laranja, fica melhor ainda.

Ele olhou para o celular e vi que tinha chegado uma mensagem do Mourão. Fez uma cara feia, matou o copo em um único gole e gritou:

Ô, Queiroz! Dá um cheque aqui para pagar a conta, talquei? Não tive tempo de ir no banco sacar dinheiro. Aproveita e pega um Tampico aí. De laranja, talquei?

Fiquei na padaria com a garrafa de pinga na mesa e essas anotações que você acabou de ler. 

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