A idade é algo que não anuncia a chegada. Ela simplesmente chega. Aos poucos, de forma sorrateira. Todo dia, ocupa mais um terreninho. Sua vitória é certa. Como aquele gato de rua que começa a frequentar seu quintal com jeito arredio. Quando você se dá conta, o folgado já deita na sua cama, tem vasilha de ração na cozinha e você está preocupado quando o vagabundo fica um dia sem dar as caras.

Você fica velho sem perceber. Adquire hábitos senis sem consciência. Aí, numa manhã qualquer, está repetindo coisas que seu avô fazia. Você já está velho. E o estupefato bate.

Qual o hábito senil por excelência? Sem medo de errar: levantar cedo da cama quando não há compromisso algum na agenda. Criança e de férias, observava meu avô aposentado acordando de madrugada. Ligava o rádio em uma emissora AM para ouvir as notícias, cozinhava um ovo, preparava um mingau de aveia e passava o café. Depois, sentava-se na sala e ligava na televisão no jornal matutino.

Eu pensava: quando for aposentado, só vou acordar ao meio-dia. Quanta ingenuidade. Falta quase um mol de anos para minha aposentadoria e já sou do tipo que acorda cedo sem nenhum compromisso para o dia.

Beleza, sei que sou daqueles que já eram velhos antes de nascer. Mas isso se tratava mais de uma postura, de escolhas estéticas. Hoje, não é algo ideológico. Já começam a pintar as características fisiológicas dos idosos. Uma dor na articulação do ombro direito, uma irritabilidade com televisão em volume alta e o fatídico despertar natural quando ainda é madrugada.

Ultimamente, não ando precisando de alarme para acordar em dias úteis. Quando o celular toca sua maldita musiquinha avisando que preciso deixar o travesseiro babado e ir para a rua ganhar o pão nosso de cada dia, já estou desperto na cama. Uso o alarme somente como aviso de que deu a hora de levantar, pois acordado já estou.

Até aí, tudo certo. Dá para dizer que habituei meu relógio biológico a essa rotina. O problema são os domingos e feriados. O sono naturalmente se esvai. Não falta esforço para dormir até o sol esquentar o quarto e me expulsar da cama. Mas não consigo.

Domingo, sete e pouquinho da madrugada, estou lá ouvindo um som baixinho para não acordar o restante da família, alimentando os animais, fazendo um pão na chapa, passando um café e com o jornal nas mãos para ler enquanto os farelos de pão prendem na barba.

Ah, como é bonito o entardecer da vida.

Um comentário

  • Fernando Machado disse:

    Te entendo Pablo.. Eu estou com 33 – sim a msm idade daquele “senhorzinho antigo” – e me habituei a acordar as CINCO DA MATINA.. Achei q estava com problemas no sono, insônia ou deprê mas não.. Compactuo com os hábitos descritos dia após dia e até que acostumei com isso..

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