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As sagradas oito horas de sono

18 de setembro de 2019 Um comentário

Coloquei o alarme do meu tablet para oito horas.”.

Mas por que você fez isso, amorzinho?”.

Ué, você não sabe que a gente tem que dormir oito horas para ficar saudável?”.

Não acreditei quando travei esse diálogo com minha caçula na última segunda-feira. A paranoia da vida saudável já atordoa sua cabecinha tão recentemente alfabetizada. Alguns chamarão isso de avanço, a consciência de um viver calcado em bons hábitos seriam melhor praticados quando aprendidos desde cedo.

É uma hipótese. Da qual discordo. Acho precipitado. Em relação à boa saúde, considero desenvolver um paladar para frutas e legumes um desafio para lá de hercúleo. Ainda mais para nós, pais e mães de uma geração criada com fartura de Skiny, Ki-Suco e Jaózinho, mas que agora se preocupa com a frutinha orgânica da hora do lanche.

Tudo bem que o que a motivou a programar o tablet não foi exatamente a vida saudável. Nem também o sonho da vagabundagem de poder acordar às oito da manha em uma terça-feira ordinária. Foi a ansiedade.

Ontem, a escola programou levar as crianças para o teatro. Elas foram assistir ao Sítio do Pica-Pau Amarelo. Minha filha queria chegar cedo na escola para pegar um lugar melhor no ônibus e, por conseguinte, no teatro. Uma graça.

O que impressiona é que, mesmo que a ambição fosse chegar mais cedo na escola visando um melhor assento na plateia, ela não cogitou simplesmente acordar mais cedo. Ela queria se preservar, dormindo as oito horas recomendadas de sono. Só aí se propôs a tocar seu projeto de se antecipar nos horários.

Deu saudade de quando eu dormia oito horas de sono várias vezes na semana. Bons tempos quando a vida me permitia desfrutar desse prazo que a Organização Mundial da Saúde indica. Desde a adolescência, dormir por esse sonhado período é coisa de esporádicos finais de semana. E, mesmo quando tenho tempo para acordar a hora em que meu corpo pedir, acabo deixando o travesseiro mais cedo. A senilidade chegou aqui pra ficar.

Expliquei para ela que não seria necessário aquela programação no tablet por alguns motivos. Primeiro, bastava ela enrolar menos para tomar o café da manhã que chegaríamos bem mais cedo na escola. Segundo, se ela acordasse oito horas da manhã, estaria atrasadíssima para a aula. Terceiro, ela havia programado o temporizador do tablet, que despertaria sim dali oito horas, mas quando o relógio estivesse marcando quatro e meia da manhã.

Não sei se ela entendeu muito bem o que eu disse. Mas sim, chegamos mais cedo na escola ontem. Sim, ela pegou o lugar desejado no teatro. E sim, tenho uma pequena paranoica com a saúde habitando debaixo do mesmo teto que eu.

Já estou com medo de quando chegar a adolescência e a temível fase das dietas. O inferno está logo ali, alguns anos adiante. Não sei se estou psicologicamente preparado para isso. 

 

Pablo Kossa é jornalista, produtor cultural e mestre em Comunicação pela Universidade Federal de Goiás (UFG).

Um comentário

  • Jose Resende de Amorim Neto disse:

    Muito legal essa reflexão ha vários anos não durmo as oito horas necessárias ao descanso normal…. Saudades dos tempos quem o tempo era desperdiçado hoje nem correndo você o alcança.

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