OpiniãoOQRTendência Pablo Kossa

Orgulho de minha misantropia

11 de setembro de 2019 Nenhum Comentário

Eu tenho andado tão só, quem me olha nem me vê…”.

Definitivamente, a bela letra em tom de lamurio de Paulo Diniz, composta para Caetano Veloso que sofria no exílio, não encontra respaldo em minha alma. Imagino a barra que o músico exilado deve ter enfrentado em Londres. Ser obrigado a se mudar de país por conta do arbítrio do governo deve ser horrível. Não quero que a minha reflexão aqui seja sob a perspectiva política, mas sim do quanto invejo o sentimento do verso “quem me olha nem me vê”.

Um misantropo convicto e orgulhoso como eu tem isso como norte de vida.

O avançar da idade favorece um olhar mais amplo sobre os caminhos que a gente tomou na vida. E provavelmente, para um quarentão como eu, será a forma como tocarei meus dias até o final deles.

Quando faço um retrospecto do caminho até agora por mim trilhado, vejo que em todas as encruzilhadas que a vida me colocou, optei pelo trajeto no qual pudesse ter menos contato social. Minhas escolhas são guiadas por aquilo que me dá prazer. Ou dinheiro (que será revertido em prazer), mas isso não é o caso por agora.

O lugar que escolhi morar favorece a solidão. O tipo de jornalismo para o qual minha vida profissional encaminhou pede algumas horas sozinho. Os esportes que escolhi praticar para protelar o dia de partir para a próxima são individuais. Os hobbies que escolhi para desanuviar a cabeça não são coletivos.

Um dia, se tudo der certo, ainda acabo morando em algum paraíso sem rádio e sem notícia das terras civilizadas.

Gosto de ficar sozinho. Sinto falta quando passo dias sem ficar algumas horas sem falar com ninguém. Adoro a companhia da maioria que me cerca diariamente. É sincero. Mas preciso ter meu próprio tempo. As escolhas que fiz me levaram a conviver o mínimo possível com quem não tenho interesse em compartilhar o mesmo ambiente. E também para gastar tempo somente com minhas ideias.

Quando faço caminhada, quando estou discotecando ou quando fico sozinho em casa, consigo pensar. Os ambientes sociais não me são favoráveis à reflexão. Podem ser produtivos, podem ser divertidos, podem ser necessários, mas não são propícios ao pensamento. E, bicho, como eu gosto de pensar. Organizar as ideias, fazer planos, organizar cronogramas, estabelecer metas, elencar prioridades. Só consigo fazer essas coisas quando estou comigo mesmo.

Causa-me espanto quando acompanho alguns amigos pelas redes que têm a vida social pra lá de agitada. Encontros, viagens, coquetéis, bares, vernissages, baladas, reuniões, lançamentos, sorrisos, drinques, canapés, abraços… Bate a exaustão, acompanhada de uma taquicardia, só de ver o Instagram da pessoa. Respiro fundo e torço para que ela seja tão feliz socializando quanto sou quando estou sozinho, ouvindo um podcast no fone, podando as folhas secas da samambaia da varanda. Essa é a vida que eu quis. E, putz, como agradeço por vivê-la.

 

Pablo Kossa é jornalista, produtor cultural e mestre em Comunicação pela Universidade Federal de Goiás (UFG).

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