OpiniãoOQRTendência Pablo Kossa

Saudade da Goiânia de outros tempos

23 de outubro de 2019 2 Comentários

Todo aniversário de Goiânia me deixa nostálgico. Tenho 40 anos, todos vividos nessa cidade. Nenhuma casa em que morei teve CEP que começasse com outro número que não 74. Minha raiz nessa terra é profunda, tal qual a das árvores do cerrado.

Além da minha relação desde que vi a luz do sol pela primeira vez com a cidade, o dia do aniversário de Goiânia me marca ainda por motivos pessoais. O 24 de outubro data também o aniversário da minha irmã. Feriado da cidade, festa em casa. Parabéns para Goiânia, parabéns para Paola.

Mas nem tudo são flores. Ao mesmo tempo que me sinto profundamente identificado como goianiense, percebo que estão arrancando minhas conexões emocionais com a cidade em uma velocidade brutal. Mal digiro uma transformação, outra já me espanca. Não dá tempo de recuperar o fôlego.

Tivemos algumas melhoras, é claro. O fim daquele estacionamento grotesco na Praça Cívica é a principal vitória nesse sentido. Mas o rol de derrotas enquanto identidade goianiense é muito maior.

Os viadutos matam praças, cruzamentos, comércios, árvores, ilhas, casas, esquinas, paisagens e o que mais tiver ao redor. Além de nos levarem mais rapidamente ao próximo congestionamento, acabam com nossas referências de identidade.

Os espigões sobem nos setores nobres. O espaço onde vivia uma família passa a abrigar dezenas. O entorno continua o mesmo. E lá se vai a qualidade de vida ao redor. Marista e Sul que se preparem, o futuro lhes reserva o que vive quem mora no Bueno, Jardim Goiás e Alto da Glória. Desculpe ser tão sincero.

Nossas casas históricas vão ao chão para abrigar farmácias insossas ou estacionamentos criminosos. Campinas, Centro, Setor Sul, Vila Nova e outros bairros mais antigos perdem suas referências arquitetônicas sem o menor pudor. Quando percebemos, lá se foi mais uma casa histórica.

E pensar que ainda temos mais de década para chegar ao centenário da nova capital de Goiás… É muito pouco tempo para tantas transformações tão violentas.

No ano de 2033, quando Goiânia completará 100 anos, tenho certeza que meu artigo da ocasião será ainda mais sofrido. Mais nostálgico. Mais saudoso. É da vida. Sei que é difícil fazer previsões de tão longo prazo. Minhas vontades e sonhos mudam, em média, a cada dez anos. Mas, analisando o passado e meu coração de hoje, a probabilidade é que eu ainda esteja por aqui, jornalista e goianiense. É onde me sinto confortável. É onde estou enraizado. É onde quero ficar.

Parabéns, Goiânia!

 

Pablo Kossa é jornalista, produtor cultural e mestre em comunicação pela Universidade Federal de Goiás

2 Comentários

  • Carlos Eduardo Kadu disse:

    Somos da mesma idade meu amigo, compartilhamos parte da nossa adolescência na saudosa ETFG. Ver o que estão fazendo com a nossa querida Goiânia corta o coração de quem ama essa terrina… nossos políticos e seus patrocinadores estão matando a nossa identidade e nós fazendo caminhar a passos largos para nós tornarmos muito em breve uma nova São Paulo!

    No centenário se eu for o Prefeito prometo que seu artigo não será tão sofrido!

    Grande abraço

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