OpiniãoOQR Pablo Kossa

Estou com preguiça dos discos de vinil

24 de janeiro de 2020 2 Comentários

 

Sou apaixonado por vinil desde que me entendo por gente. Da primeira infância, guardo ainda os discos que ganhei do Fofão, Trem da Alegria, Trapalhões, Xuxa, Sérgio Mallandro e aqueles coloridos com histórias infantis.

Logo depois, me encantei pelo rock nacional e os álbuns das bandas brasileiras oitentistas se tornaram meus objetos de desejo que eu ganhava no aniversário, Natal e Dia das Crianças. Ainda hoje, gasto bons reais com discos de vinil. Mas, de uns tempos pra cá, estou com uma preguiça desgraçada dessa mídia.

Tenho duas vitrolas em casa. Uma fodona, Technics, sonho de todo audiófilo. Outra é mais simples, Gradiente que vem embutida no próprio som 3 em 1. No momento, as duas estão estragadas. Já faz alguns meses que estou impossibilitado de ouvir discos em casa. E não sei quando vou levá-las para o conserto. A preguiça é uma barreira poderosa.

A verdade é que vinil é canseira. Tem que lavar, tem que limpar, tem que olhar a cápsula, tem que ter adaptador, tem que ver a tensão elétrica da tomada que o aparelho está ligado, tem que ver o diabo a quatro. E, mesmo vendo tudo isso, nada garante que o som vai ficar a contento. É muito esforço para manter o fetiche em dia. Baita hobby canseira.

Além desse trampo, o hype do vinil piorou as coisas. Quando o CD era hegemônico e os discos eram jogados de lado, fazia muito sentido ser colecionador de vinis. No início dos anos 00, ganhei muitas coleções de gente que mandaria tudo para o lixo caso eu não buscasse os álbuns. Incontáveis títulos estão na minha estante por causa disso. Os sebos faziam promoções inacreditáveis. Nessa época, nadei de braçada.

Comprei tanta coisa boa a preços ridículos que você não acreditaria. Tipo o All Things Must Pass do George Harrison, disco triplo, a três reais. Ou o Achtung Baby do U2 a cinco reais. Wish do Cure a um real. Outros tempos…

Nessa época, tinha um porquê você ter uma vitrola em casa. Com o CD custando entre 20 e 30 reais, era recompensador comprar vinis. Puta custo-benefício. Hoje, parece que o preço do disco está vinculado à cotação do ouro. A gourmetização do vinil destroçou essa vantagem econômica do início da década passada.

Hoje, satisfaço minha necessidade contínua de ter música tocando no ouvido com o Spotify. Fujo das playlists como o Queiroz foge da Justiça – playlist representa a morte da música. Ouço minhas discografias, me ligo em artistas que não conheço, relembro velharias pelo streaming. Sei que isso não será para sempre. Uma hora, vou sentir saudades, levarei minhas vitrolas para manutenção e botarei os bolachões na agulha novamente. Enquanto isso não acontece, a caixinha da JBL está me fazendo um bem danado.

2 Comentários

  • Me identifiquei demais! Também dei um breque com essa gurmetização, e pior: Fiquei muito tempo sem consertar o som que tinha nos meus pais (possivelmente o mesmo Gradiente 3×1 que mencionou), depois consegui comprar uma vitrolinha digital, aí o preço de tudo vai lá pra cima. Não é fácil mesmo manter esse amor pelo bolachão. Viva o streaming, até que a saudade da agulha bata forte.

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