OpiniãoOQRTendência Pablo Kossa

Coronavírus é um problema, mas temos tretas maiores a resolver

28 de fevereiro de 2020 2 Comentários

O que se desenhava há algum tempo aconteceu durante o Carnaval: foi confirmado o primeiro caso do coronavírus em nosso país. Era previsível. Num mundo ultraconectado, com gente viajando pra cima e pra baixo o tempo todo, sabíamos que não passaríamos incólumes por essa doença.

Até o momento, as autoridades da Saúde no Brasil agem de forma elogiável. Ministério da Saúde, secretarias estaduais e municipais prestam informações com transparência, medidas preventivas vêm sendo tomadas no tempo correto, a população está bem informada acerca das providências para casos suspeitos.

É claro que não falta boato rolando nos grupos de WhatsApp. Como não teríamos? Esqueça os papinhos de tiozão do zap. Esse tipo de gente só serve para tumultuar. O que importa é que, em linhas gerais, estamos nos portando bem perante essa doença que causa temor mundo afora.

Se isso está relativamente de boa, tem muita coisa que não. Um exemplo? O estado de nossa democracia. Dia após dia, Jair Bolsonaro testa os limites democráticos estabelecidos pela Constituição para seu cargo.

Não tenho dúvidas que isso vai dar errado. Ou melhor, já está dando. Talvez, já tenha dado. Tanto faz.

O comportamento irresponsável do presidente é deplorável. Age como água vazando de um cano que passa dentro da parede. Internamente, vai corroendo os alicerces da construção democrática de nosso país.

Força o limite um tantão, recua um pouquinho. Mente um tantão, pede desculpa um pouquinho. Acirra um tantão, dá uma de humilde um pouquinho. Sempre dois passos pra frente e um pra trás. Vai ganhando terreno aos poucos, de forma sorrateira.

O discurso antidemocrático se fortalece. Uma parcela da sociedade acredita na falácia, se engaja. Quem diria que o primo querido, o amigo de infância, o vizinho do bairro, o colega de escola e vários daqueles com quem você jogava futebol de botão quando moleque se transformaram em pessoas que topam qualquer coisa para defender o mito indefensável, não é mesmo?

Fechar o Congresso? Eles topam. Subjugar o STF? Eles topam. Acabar com a liberdade de imprensa? Eles topam. Ofender mulheres, negros e gays da forma mais vil possível? Eles se regojizam. Que lástima.

Todos os males que o coronavírus pode trazer ao nosso país, e são vários, não fazem cócegas perante o que o avanço do sentimento antidemocrático está causando. Por isso que nunca foi tão necessário estar atento e forte.

 

Pablo Kossa é jornalista, produtor cultural e mestre em comunicação pela Universidade Federal de Goiás

2 Comentários

  • Paulo Henrique disse:

    Mais uma vez quero dizer o quanto admiro esse cara que é o Pablo.
    Tenho ficado cada vez mais com medo dessa cegueira e dessa falta de autocrítica das pessoas. Em linhas gerais somos um povo sem noção do nosso passado obscuro no que tange a ditadura e os modelos antidemocráticos. As pessoas não se dão conta do perigo que estamos correndo ao de voltarem a uma pessoa que prega o ódio como forma de paz. Um povo que não reflete seu passado está fadado a revivê-lo.

  • Alexandre disse:

    É tudo isso aí Pablo….Me identifiquei com a parte sobre velhos amigos….Aqueles com os quais bebemos da mesma água….comemos do mesmo prato….Agora se revelam como suditos, fiéis escudeiros do pseudocomandante…..Estou tentando entender esses pontos de vista distorcidos ….afinal estão partindo de pessoas do meu convívio….

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